Depoimento de Rita de Cássia – Transplante Duplo

A vida é simplesmente cheia de desafios. E com certeza, a cada desafio superado, a cada dificuldade vencida, percebemos a existência de Deus e passamos a acreditar cada dia mais nos Milagres Divinos.

Digo orgulhosamente que sou uma pessoa extremamente abençoada e carrego comigo cicatrizes que servem como troféus recebidos das Mãos de Deus. Bênçãos divinas acontecem a cada instante em minha vida. Vou tentar deixar aqui um pouco da minha experiência de vida e as grandiosas benções recebidas nesses 31 anos de vida.

Meu nome é Rita de Cássia, sou filha única, tenho 31 anos e aos 14, na adolescência descobri uma doença hepática auto-imune e desde então começou a minha luta contra a doença. Fiquei internada 4 meses em Belo Horizonte até o diagnóstico da hepatite auto-imune e meu pai e minha mãe revezavam para ficar comigo.

O médico que deu meu diagnóstico em BH disse para minha mãe que futuramente eu iria precisar fazer um transplante hepático. O chão caiu, porque pouco se falava em transplante e parecia história de novela. Minha mãe foi orientada a procurar o Hospital das Clínicas de São Paulo, por ser referência em Transplantes no Brasil e assim ela fez.

Marcamos uma consulta no Instituto da Criança em São Paulo e comecei a fazer meu tratamento lá. A Dra. disse que iria realizar meu tratamento com medicamentos e que por enquanto não seria indicado o transplante, e assim foi até meus 16 anos, quando comecei a ter hipertensão arterial e diagnosticaram um problema renal também. Comecei a ser acompanhada pela nefrologia do Instituto da Criança até os 19 anos de idade, quando fui transferida para o HC.

A criança tinha crescido e já não era mais uma adolescente e sim uma adulta com problema renal e hepático. Herança genética? Talvez, mas nada concreto no diagnostico.

Fui transferida para a hepato do HC. Dr. Eduardo Cançado que me acolheu com todo carinho e dedicação. Realizava consultas trimestrais na hepato e na nefro e sempre me cuidando. Nunca deixei que a doença tomasse conta de mim. Sempre levei uma vida normal: estudando, divertindo, viajando. A força de vontade de viver sempre era maior que as dificuldades que a doença me trazia.

Em 1999, comecei a fazer faculdade de matemática, pois sempre me identifiquei com os números. Fiz um ano de matemática e no final de 99, tive um edema agúdo de pulmão na minha casa em MG e fui levada diretamente para o hospital mais próximo onde fiquei internada na UTI por 72 horas.

O Nefrologista do Hospital me tirou do risco de morte e na minha próxima consulta em São Paulo, tive a triste notícia de que meus rins haviam parado e que iria precisar fazer hemodiálise.

Conversei com a Dra. “nefrologista” do HC e na minha inocência e vontade de viver, perguntei a ela sobre o transplante e ela friamente respondeu que eu não poderia ser transplantada pelo fato de ter meu fígado doente. Meu fígado atacaria o rim transplantado e eu perderia o enxerto. Foi a frase mais fria que ouvi em toda minha vida. Meu mundo acabou naquele momento e eu comecei a chorar desesperadamente, pois eu ia ter que depender de uma máquina de hemodiálise para sobreviver.

Sai do consultório desesperada e sem chão. Naquele mesmo dia a tarde fui para consulta com o Dr. Eduardo, hepatologista. Foi aí que tudo mudou e a esperança voltou a nascer dentro de mim novamente.

Dr. Eduardo me explicou do transplante duplo (fígado e rim) e me cadastrou na fila após horas de conversa. Até então eu não estava na fila do transplante porque meu fígado estava indo bem com as medicações. Ele me explicou sobre a importância de seguir corretamente o tratamento enquanto fazia hemodiálise e garantiu que dentro de 2 anos e meio a 3 anos eu seria transplantada.

Daquele momento em diante meus olhos começaram a brilhar novamente e eu tinha um motivo para me cuidar e ser forte. Sai do consultório e voltei para MG com minha mãe e comecei a fazer hemodiálise aqui em MG com o mesmo médico que me tirou do risco de morte.

Lembro claramente do primeiro dia de hemodiálise. Era véspera de Natal e os pacientes faziam festinha e amigo secreto. Belo presente eu pensava comigo, mas tinha q ser forte, a vida me exigia isso.

Fui recebida com muito carinho pela equipe da hemo e pelos pacientes. Fui me adaptando e com pouco tempo já era amiga de todos os pacientes. Acho que pelo fato de ser a mais novinha da hemo todos me paparicavam bastante, desde os funcionários aos pacientes, o que me ajudava muito.

A família também foi maravilhosa. O apoio da família é primordial nesses momentos. Parece que a família inteira entra na fila do transplante e passa a fazer hemodiálise com a gente. Fazem até a mesma dieta de um renal crônico.

Mesmo fazendo hemo nunca deixei me levar pela doença e nunca deixei que meus problemas interferissem na minha vida social. No ano de 2000 tive uma perda muito grande. Meu pai veio a falecer após infarto. Foi uma barra e agora seria eu e minha mãe, que sempre muito presente, me deu forças em tudo.

Fiz hemo em Minas até junho de 2002, quando me transferiram para São Paulo, pois a minha posição na fila estava bem adiantada.

Fui para Sampa e fiquei na casa do meu tio e comecei a fazer hemo no Hospital Santa Catarina na Avenida Paulista. Fiz hemo nesse hospital de junho até setembro de 2002. Lembro muito bem que numa manhã de terça-feira, dia de hemo, logo após eu acordar e me preparar, o telefone tocou e minha tia atendeu. Ela me chamou e disse: parece que é do Hospital. Atendi e era a enfermeira do HC me perguntando se eu estava pronta porque meus órgãos estavam me esperando.

Foi uma emoção muito grande. Liguei para minha prima que me acompanhou até o hospital. Era a hora de acontecer o Grande Milagre, o Milagre tão esperado por todos que estavam próximos de mim. Minha mãe estava em MG, e liguei para ela vir o mais rápido possível.

Estava me sentindo a pessoa mais feliz do mundo. Ia me livrar da máquina de hemodiálise. Minha qualidade de vida iria melhorar. Fui preparada para o transplante e levada para o bloco cirúrgico às 19 horas.

Minha mãe ainda não havia chegado quando entrei para o bloco cirúrgico e começaram a cirurgia. Foram 20 horas de cirurgia, afinal eram dois órgãos. A cirurgia do fígado foi primeiro e logo em seguida o rim. Foi um sucesso. Fiquei internada um tempo para recuperação.

Recuperei muito bem, mas em maio descobriram um outro problema hepático devido ao transplante e tive que novamente fazer uma outra cirurgia para correção da bile o que novamente foi um sucesso.

Desde maio de 2003 tenho levado uma vida mais do que normal. Nunca mais precisei ficar internada. Em 2005, comecei a fazer faculdade de enfermagem e me formei no final de 2008.

Meu trabalho de conclusão de curso foi sobre “Assistência de enfermagem ao transplantado renal” que foi maravilhoso. Atualmente, faço pós-graduação em Auditoria em Saúde. Levo uma vida normal, dentro das poucas limitações. Graças ao transplante isso é possível. Meus órgãos estão ótimos e sou uma pessoa realizada e feliz.

Deixo aqui a minha história para que as pessoas possam acreditar mais na vida. Acreditar que acima de todas as coisas existe um Ser maior, um Deus único e verdadeiro que faz milagres em nossas vidas, basta acreditar e ter Fé sempre.

Deixo meu sentimento de gratidão á família do meu doador, que mesmo num momento de dor, optaram por salvar vidas.

E deixo meu apelo para que as famílias se conscientizem cada vez mais quanto a importância da doação de órgãos, pois podemos deixar muito mais do que saudade, podemos deixar VIDA!!!!

Levo sempre essa frase comigo: “A vontade de DEUS nunca irá levá-lo aonde a GRAÇA de DEUS não irá protegê-lo!!!”

Minha mãe, pessoa que mais amo nessa vida, a responsável por tudo e eu

Minha mãe, pessoa que mais amo nessa vida, a responsável por tudo e eu.

Sobre Naninho Luiz Ernani

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